sexta-feira, 13 de outubro de 2017

ENA 1957 É DIAMANTE
60 ANOS DE FORMATURA

BAIXADA DE ITAGUAÍ                                                                    
                                                                 João Montojos
      Era dezembro de 1957. Aquele dia 21, tal como frequentemente ocorre na Baixada de Itaguaí, amanhecera encoberto e muito abafado. A atmosfera densa tornava penoso o simples ato de respirar. Já se podia imaginar que o termômetro atingiria nas primeiras horas da tarde as raias dos 40º C, tal como ocorre frequentemente na Baixada de Itaguaí.
          Logo cedo um grupo de jovens mal disfarçava sua ansiedade ao se preparar para a batalha final da grande guerra em que se transformara sua vida estudantil. Tomados por múltiplas emoções viam desenrolar diante de seus olhos as cenas mais relevantes de sua curta existência.
          Instantes de grande alegria, de profunda tristeza, de preocupações, de decepções e de esperanças misturavam-se formando um mosaico indecifrável. Essa era a visão que resumia, naquela hora, seus dias universitários.
          A incerteza no futuro, por outro lado, espicaçava seus espíritos ainda em formação, tal como ocorre frequentemete com todos os moços quando de seu ingresso na vida profissional.
          O grupo extremamente heterogêneo era formado por indivíduos provenientes dos mais diversos rincões desse país e até de fora dele. De condição sócio-econômica variada, de hábitos e costumes nem sempre comuns, os componentes da Turma ENA 57 em tudo se assemelhavam aos integrantes dos demais grupamentos estudantis da Rural.
          Depois da cerimônia religiosa, da estafante solenidade de colação de grau, do plantio da árvore que marcaria para sempre a passagem da Turma pelo km 47 e do almoço festivo, chegara a hora indesejada da despedida.
          Com a voz embargada os formandos se abraçavam fortemente e choravam o fim daquele convívio. Com poucas palavras e muitos murmúrios desejavam-se mutuamente boa sorte na estrada que começava a ser percorrida.
          Cada qual ao iniciar-se na nova vida levava a torcida e a confiança dos demais como arma poderosa na luta por sua afirmação.
          Expressões mais ou menos vazias frequentemente pronunciadas em ocasiões semelhantes, tais como: "até a vista!” ou “até qualquer dia!” não estiveram presentes nessa data.
          Os jovens, que pareciam apenas novos atores da velha peça teatral que vinha sendo encenada ano após ano no palco árido de Seropédica, nesse momento mostraram-se inteiramente diferentes. Não se conformaram em ver a sólida amizade construída, tijolo por tijolo,  em anos de estreita convivência, se desfazer no ar como se fora apenas fumaça.
          A Turma prometeu manter-se unida e cada qual sempre que possível haveria de comparecer às reuniões que inevitavelmente seriam programadas.
          E de forma inteiramente inédita e diferente de tudo que se conhece, aquele grupo de amigos, hoje todos septuagenários, continua a cultivar o salutar hábito de consolidar sentimentos fraternais,
         Movida ainda pelo clima vivido naquele longinquo 21 de dezembro, quando a elevada temperatura ambiente não superou a desenvolvida no interior de cada um dos componentes, a Turma ENA 57 vem se renovando em encontros comoventes ao longo de quase meio século, tal como não ocorreu jamais, nem mesmo na Baixada de Itaguaí.
                                                                       Setembro 2005